Faz precisamente um ano que a vida do jovem Ismael José Pires Sousa mudou. Para pior? Ele garante que não. Com um cancro diagnosticado, foram precisos apenas alguns segundos para assimilar que tinha a doença. Trata-se de um ‘Linfoma de Hodgkin Grau IV’ que não o derrubou, mas o tornou mais forte. Já fez sessões agressivas de quimioterapia, passou por períodos de isolamento total, mas por ser uma pessoa de fé [não tivesse frequentando, por uma década, um seminário], vê em Deus a força para continuar. Com mais dois irmãos, é o filho do meio, e acredita que é aí que “está a virtude”, contou-me entre sorrisos. Sobre a taxa de cura da sua doença, esta ronda os 90 por cento e, por isso, acredita que na próxima consulta, que acontece ainda no decorrer deste mês, o linfoma tenha desaparecido, deixando o seu corpo. Pessoa de afectos que é, nunca questionou o porquê de ter contraído a doença: “apenas aceitei. Quero mostrar que não é assim tão mau e se metade das pessoas vissem a vida como a vejo, as coisas seriam muito melhores. Acredito que onde há energia positiva, não pode haver negatividade”. Traz também no seu anelar direito [num anel] a seguinte inscrição que traduzimos do latim: ‘Para maior glória de Deus’ e é por este lema que se rege. Criou o blog ‘Estórias do Coração’ pouco depois de lhe ter sido diagnosticada a doença. Neste espaço, partilha situações por que passa no seu dia-a-dia, sendo uma forma de desabafar e dar a conhecer que este monstro, a que chamam cancro, não é assim tão mau. Contudo, fechar-se nunca foi solução e com o intuito de dar a cara, sem constrangimentos, este espírito livre – como gosto de lhe chamar – contou, sem medo e sempre com uma grande vivacidade nos olhos, como descobriu que estava doente, como tem encarado o cancro e traduz-se como “a fénix que morre e renasce das cinzas”, pois é assim que se sente.

“(…) sabe, tive que pensar na minha mãe”

Se para muitos este seria, possivelmente, o momento de se ‘fechar’… para ele não. Não podia. Tem uma família a torcer e amigos que o apoiam. Espírito livre que é, e crente a Deus, mostrou-me que a vida é muito mais que dois dias. Assim, o jovem natural e residente na União das Freguesias de S. Pedro do Sul, Várzea e Baiões e com apenas 24 anos, disse-me que a 15 de Abril do ano passado foi ao Centro de Saúde local porque tinha dores na coluna, mas pensou que eram decorrentes da espinha bífida que diz ter, e por ter notado que possuía uns gânglios na zona auricular, junto ao maxilar. Lá, depois de examinado, foi reencaminhado de imediato para o Hospital de Viseu, tendo ficado internado durante três dias, onde realizou vários exames e uma biopsia. Contudo, teve de repeti-la a 12 de Maio e no dia 20 [deste mesmo mês] a médica confirmou-lhe que tinha um linfoma ‘Hodgkin Grau IV’. Ao ser questionado de como reagiu a esta informação, referiu-me: “estava com a minha mãe, que sempre me acompanha…receber a notícia foi uma questão de segundos, porque já estava a contar que algo não estava bem. Tive que assimilar rapidamente… sabe, a minha mãe estava lá… elas [mães], sofrem sempre mais… e não podia deixar-me ir abaixo”.

A aceitação

“Aceitei desde o início” – assegurou-me o Ismael e explicou o porquê: “quando a gente começa em negação e nos revoltamos a superação da doença é muito mais difícil”. Confiante e com os olhos a sorrir para mim, garantiu-me que “sempre que tenho algum desafio pego o touro pelos cornos”.

Tratamentos

Primeiro, “comecei por fazer seis sessões de quimioterapia e os efeitos secundários são muito dolorosos. Mal estar e agonia foram os principais sintomas. As minhas primeiras noites foram passadas a vomitar e ia bebendo água para ter alguma coisa no estômago. Sei que o que fiz foi errado, mas o desespero é de tal ordem que nem se pensa. Depois, fui fazer exames para ver se a doença tinha regredido. Todavia, tinha estagnado. Nessa altura, entre Setembro e Dezembro, fiz mais quatro sessões de quimioterapia por internamento - 24 horas sobre 24 horas. Em Janeiro voltei a repetir o exame e a médica informou-me que estava pronto para fazer o autotransplante de medula” – deu a conhecer o jovem. Assim sendo, a partir de “Fevereiro comecei por fazer a recolha das minhas células. Congelaram-nas e voltaram-me a chamar para fazer mais uma semana de quimioterapia de alta intensidade, para arrasar com o meu sistema imunitário. Depois transplantaram-me as minhas células e durante mais três semanas, estive nos Hospitais da Universidade de Coimbra. As duas primeiras em isolamento total e as outras duas a tempo parcial”.

 Falar sobre a experiência

Para Ismael, falar sobre esta experiência “faz bem”, porque “ajuda-nos”. Os médicos “sempre me disseram que o encarar a doença positivamente e o apoio da família são essenciais; e eu acredito”.

A perda do cabelo

Um dos efeitos secundários da quimioterapia, a que o Ismael esteve sujeito, foi a queda do cabelo. Na altura, em jeito de brincadeira e para cortar um pouco a tensão que se vivia naquele momento, contou-me que “dei uma palmadinha nas costas da minha mãe e disse-lhe: é desta vez que vou rapar o cabelo”. Mas, o jovem confidenciou-me que “sempre tive uma grande paixão pelo meu cabelo e cortei-o antes de o ver cair, porque não iria conseguir passar por este processo se não fosse desta forma. Ia ser um grande trauma para a minha vida”.

Como encara os olhares

No início da doença, o Ismael evidenciou que lhe incomodava a forma como as pessoas o olhavam na rua. “Sabe, aquela expressão de coitadinho, odiava”, acrescentando que “nunca deixei de sair, mas é claro que, no início evitava ir a certos locais. Mas acredite, que foi uma situação que resolvi rapidamente, porque nunca me achei um coitadinho”. Mas teve uma situação, vinda de um amigo que o magoou e até hoje não se esquece: “era um rapaz mais velho que eu, que quis saber o que tinha e como se apanhava… fiquei de rastos”. O Ismael falou ainda sobre o que mais o incomoda. Ou seja, “o olhar de pena” e o preconceito que “há sobre as pessoas que têm cancro. E não deveriam, pois há muitos casos de sucesso” e exemplificou: “temos algumas restrições, mas não devemos estar fechados longe das pessoas e há esse preconceito; tenho tentado dizer isso mesmo. Posso e faço a minha vida normal e não preciso de ser olhado como se estivesse a morrer”.

De onde vem esta força

Para além da família e dos amigos, a religião é, sem dúvida, parte desta força que o Ismael transborda por todos os poros do seu corpo. Com cerca de 12 anos começou a estudar para ser padre, onde se manteve durante dez anos. Entretanto, interrompeu e explicou que o fez por “ser muito novo e que era chegada a altura de parar e de pensar se era ou não o caminho que devia seguir, pois vejo o sacerdócio como uma entrega definitiva”. Todavia, a doença apareceu-lhe passados dois anos e “para mim foi mais uma prova que Deus me punha e tive a certeza que a iria superar sem qualquer problema” – destacou o jovem. Refira-se que o Ismael continua a dar catequese na paróquia da Cidade e faz parte do grupo de jovens. Sobre a possibilidade de voltar ao seminário, não descarta a sua ida e diz que assim que estiver bem, poderá ser o caminho a seguir.

O blog – ‘Estórias do Coração’

Habituado a escrever nas redes socias, durante um tempo foi a ‘cara’ do blog ‘Partituras de um Sonho”. Era um espaço a que se dedicava habitualmente, só que na altura em que ‘conheceu’ a doença, frisou que não fazia sentido continuar a escrever para o ‘Partituras’ e criou o ‘Estórias do Coração’, que nasceu um mês depois de lhe ter sido diagnostica a doença [Junho do ano passado]. Inicialmente escrevia sobre situações por que passava no seu dia-a-dia, “contando a minha história: o que tenho e como descobri. Neste sentido, relato vários episódios de confrontos que fui tendo, com alguns testemunhos” – esclareceu, afirmando que “para mim é uma forma de desabafar e dar a conhecer a todas as pessoas que este monstro, a que chamam cancro, não é assim tão mau. É mais como a fénix que morre e renasce das cinzas. É assim que me sinto”.

O sorriso

O sorriso e a fé em dias melhores, é para o jovem Ismael a melhor forma de mostrar que a vida é para ser vivida e quer faça chuva ou sol, temos que estar prontos para ‘as curvas’. Durante o mês em que esteve isolado no Hospital de Coimbra, praticamente todos os dias, comunicou-se com o mundo, através de várias mensagens, nas redes sociais, onde fazia questão de dizer que ‘Gosto de ti’ e ‘Sorriam’ e explicou o porquê de o ter feito: “quis mostrar que até podia estar fechado, mas que sempre podia deixar o meu sorriso; e se eu consigo, porque há quem não o faça? A sociedade está tão preocupada em fazer face às várias coisas do seu quotidiano que deixam de aproveitar os bons momentos. Acredite: um sorriso basta para mudar a vida de alguém”. Aproveitou e contou-me uma situação pela qual passou: “tenho um cancro e estou aqui e estou a sorrir. Mas, houve um dia que estava num café, na Cidade de S. Pedro do Sul, e uma senhora lá estava a falar mal de tudo o que lhe acontecia. Não resisti, fiz com que olhasse realmente para mim e falei-lhe da minha história. No final, a senhora agradeceu e disse que lhe tinha mudado aquele dia. Senti-me fantástico”. Já as paredes de nossa casa, que por vezes podem ser conselheiras, na opinião do Ismael, “podem também ser traiçoeiras, porque fazem-nos pensar naquilo em que não devemos”. Adiantou ainda que “nunca entrei em depressão e poderia ter tido apoio psicológico, mas não quis, porque sei que este cancro não me vai vencer”. Segundo o jovem, “possuo uma fé sólida, que me diz que Deus não é culpado por isto ter-me acontecido. São processos naturais e Deus ama-nos tanto que não interfere nas nossas vidas. Por isso, não entendo porque há-de ser o culpado de tantas maldades que há neste mundo, quando são os homens que as praticam”.

Quando se revolta

Aí sim, com um semblante mais pesado e tristeza no seu olhar, não teve problemas em me dizer que se revolta quando “vejo alguém morrer de cancro. Sabe, porquê? lutamos muito, acredite… muito mesmo, e, por vezes, a doença acaba por nos vencer. Sobretudo, quando há casos que nem a oportunidade de lutar têm”. E foi com estas palavras de fé, esperança e perseverança que deixei o Ismael. Senti que somos muito pequenos e frágeis; e que o valor que damos às ‘coisas’ não são nada perante o sofrimento e a luta diária de milhares de ‘Ismaeis’ que nos mostram que uma unha encravada nada mais é que uma unha encravada.

Perfil

Ismael José Pires Sousa, 24 anos, natural e residente na União das Freguesias de S. Pedro do Sul, Várzea e Baiões.

Ler, escrever, passear, fotografar e ouvir música é o que mais gosta de fazer.

Sorrir e contagiar os demais, com a sua boa disposição é, sem dúvida, uma das suas melhores características.